O prato custa uma coisa no cardápio e outra no recibo. Entre os dois aparecem linhas pequenas, em letra cinza, que quase ninguém lê antes de tocar em pagar: taxa de entrega, taxa de serviço, às vezes um desconto de clube, às vezes uma gorjeta sugerida. Este site existe para ler essas linhas por quem está com fome e com pressa.
Comparamos aqui cinco apps de delivery de comida que aparecem no celular de muita gente no Brasil: iFood, Rappi, 99Food, Keeta e aiqfome. Não comparamos o sabor da pizza nem a simpatia do entregador. Comparamos a regra. O que cada empresa diz que cobra, onde diz isso, e o que fica sem dizer. E, como nenhum app mostra a conta fora dele, há uma calculadora que compara o mesmo pedido em dois ou três apps.
Por que a conta sobe sem o prato mudar
Quem pede comida pelo celular paga três coisas diferentes, e só uma delas é comida. A primeira é o preço do prato, que o restaurante define. A segunda é a entrega, que pode ser feita pelo próprio restaurante ou pelo app. A terceira é a parte do app: o que ele cobra por existir no meio do caminho, juntar o cardápio, processar o pagamento e mandar alguém buscar o pedido.
Durante anos essa terceira parte ficou escondida no preço do prato. O restaurante pagava comissão ao app e repassava no cardápio, e o cliente não via. Depois os apps passaram a mostrar uma linha separada, com nomes como taxa de serviço ou taxa da plataforma. Em tese, isso deixa a conta mais clara. Na prática, quase nenhum app explica de forma aberta como chega ao valor.
Há também um motivo simples para a conta subir em pedidos pequenos. Taxa fixa não liga para o tamanho do pedido. Uma linha de serviço que parece pequena num jantar de família vira uma fatia grande do total quando o pedido é um prato só. Por isso o mesmo app pode parecer barato num domingo e caro numa terça.
As quatro linhas que olhamos
Para cada app, lemos quatro coisas. São as mesmas linhas da placa no alto desta página.
- Taxa de entrega. Quem define, se muda com a distância, se há entrega grátis e em que condição.
- Taxa de serviço. Se o app cobra, se publica o valor e se explica o critério.
- Clube. Se existe assinatura, o que ela dá e se o preço aparece fora do aplicativo.
- Além de comida. Se o mesmo app entrega mercado, farmácia, pet, bebida ou gás.
A quarta linha parece fora do assunto, mas não é. Um clube que dá entrega grátis só em mercado e farmácia rende muito para quem faz compra da semana pelo app e quase nada para quem só pede jantar. O que o app entrega além de comida muda o valor do clube.
A taxa de serviço, app por app
Esta é a linha que mais gera dúvida e a que menos tem regra aberta. Juntamos abaixo o que cada empresa publica e, quando ela não publica, quem mais falou sobre o assunto.
| App | Taxa de serviço ao cliente, leitura de outubro de 2026 |
|---|---|
| iFood | Cobrada por pedido, de R$ 0,99 a R$ 1,99 segundo o Procon de Goiás, em julho de 2025 |
| Rappi | Prevista nos termos de uso, sem valor nem percentual publicado |
| 99Food | Aparece no fim do pedido desde dezembro de 2025, com valor que varia |
| Keeta | Não achamos regra publicada fora do aplicativo |
| aiqfome | Não achamos regra publicada fora do aplicativo |
O caso do iFood é o mais documentado, e não por iniciativa da empresa. Em 2025 a cobrança passou a aparecer em todos os pedidos, primeiro com um valor e depois com outro, mais alto em alguns horários. O Procon de Goiás autuou a empresa e descreveu a taxa como obrigatória e sem finalidade clara. Até a data desta leitura, o iFood não publicou uma página aberta explicando o critério.
O Rappi faz o contrário: escreve nos termos de uso que pode cobrar uma taxa de serviço pela intermediação, e que o cliente aceita a cobrança ao concluir o pedido. Só não diz quanto. O valor aparece na tela, na hora.
A 99Food passou a mostrar a taxa em dezembro de 2025. A imprensa registrou a mudança e a reação dos clientes. A ajuda oficial da 99 fala bastante das taxas cobradas do restaurante, mas não traz a regra da cobrança feita ao cliente.
Keeta e aiqfome não publicam regra de taxa de serviço em página aberta que pudéssemos ler. Isso não quer dizer que não cobram. Quer dizer que, para saber, é preciso abrir o app, montar o carrinho e olhar.
O governo também quer saber para onde vai o dinheiro
Em março de 2026 a Secretaria Nacional do Consumidor publicou a Portaria 61, que obriga apps de delivery e de transporte a mostrar ao cliente quanto do total vai para a plataforma, quanto vai para quem entrega e quanto vai para o restaurante. O prazo para se adequar acabou em abril.
Em maio a Senacon abriu processo contra o iFood e a Keeta. No caso do iFood, a secretaria apontou indícios de que os nomes taxa de entrega e taxa de serviço podem induzir o cliente a erro sobre o destino do dinheiro. No caso da Keeta, a crítica foi a falta de um quadro claro de quanto cabe a cada parte. A 99Food também virou alvo de processo separado, pelo mesmo motivo. As empresas responderam que estão se adequando ou que o recibo já mostra a divisão.
Para quem pede, a consequência prática é boa: o recibo tende a ficar mais detalhado nos próximos meses. Mas, até aqui, nenhum dos cinco publica uma tabela aberta que permita comparar antes de instalar o app.
A taxa de entrega
Aqui quase tudo depende. A taxa de entrega muda com a distância, com a loja, com o horário e com a promoção do dia. Nenhum dos cinco apps publica uma tabela de valores. O que eles publicam são as exceções: quando a entrega sai de graça.
No iFood, a entrega grátis aparece como benefício do clube, e só em duas categorias: farmácia e mercado, cada uma com um valor mínimo de pedido. Em restaurante, o clube dá cupons de desconto, não entrega grátis garantida.
No Rappi, a assinatura Pro promete entrega grátis ilimitada em todas as categorias. É a promessa mais ampla dos cinco.
Na 99Food, a ajuda oficial diz que os dois primeiros pedidos de quem é novo têm entrega grátis. Depois disso, a regra não aparece em página aberta.
A Keeta chegou a São Paulo com entrega grátis em mais de 90% dos restaurantes. Foi a forma de entrar num mercado já ocupado. Se a condição continua igual hoje, em cada bairro, só o app responde.
No aiqfome, cada loja mostra a sua taxa, e o clube d+ dá um cupom por dia que pode ser de desconto ou de entrega grátis, em pedido acima de um valor mínimo.
O clube, e quando ele se paga
Três dos cinco apps vendem assinatura: iFood, Rappi e aiqfome. Os outros dois apostam em cupom de chegada. Nenhum dos três clubes mostra o preço numa página aberta que pudéssemos ler sem login. O que sabemos do preço veio da imprensa, e está na tabela abaixo com a data.
| App | Clube | Preço publicado, outubro de 2026 | O que o clube dá |
|---|---|---|---|
| iFood | Clube iFood | Não publica fora do app. Imprensa citou R$ 12,90 por mês em fevereiro de 2026 | Cupons de desconto em restaurante e entrega grátis em mercado e farmácia acima de um mínimo |
| Rappi | Rappi Pro e Pro Black | Não publica fora do app. Imprensa citou R$ 34,90 por mês para o Pro entre 2024 e 2025 | Entrega grátis ilimitada e desconto na taxa de serviço; o Pro Black soma prioridade e suporte |
| 99Food | Sem clube encontrado | Não se aplica | Promoções de chegada: entrega grátis nos dois primeiros pedidos e cupons em cidade nova |
| Keeta | Sem clube encontrado | Não se aplica | Cupons de boas-vindas e entrega grátis na chegada a cada cidade |
| aiqfome | Clube d+ | Não publica fora do app | Um cupom por dia, de desconto ou de entrega grátis, e descontos em lojas do grupo Magalu |
Preço lido na página do próprio app, na data das fontes no fim da página. "Não publica" quer dizer que o app só mostra o preço dentro do aplicativo.
A conta do clube é simples de montar, e vale fazer antes de assinar. Pegue quantos pedidos fez no último mês. Some o que pagou de entrega e de taxa de serviço nesses pedidos. Compare com o preço da assinatura. Se o clube cobre mais do que custa, ele se paga. Se não cobre, é só mais uma linha na fatura do cartão. A calculadora do pedido faz essa conta com os seus números.
Há uma pegadinha comum: o clube do iFood dá entrega grátis em mercado e farmácia, não em restaurante. Quem assina pensando no jantar pode se frustrar. Já o Rappi Pro cobre todas as categorias, mas a cobertura do Rappi no Brasil é menor que a do iFood, e a empresa não publica a lista de cidades. O d+ do aiqfome é o mais modesto dos três: um cupom por dia, para usar ou perder.
O que cada app entrega além de comida
iFood, Rappi e aiqfome entregam bem mais do que comida pronta. Os três têm mercado, farmácia e bebidas. O iFood soma pet, flores e outras lojas. O aiqfome entrega até gás de cozinha. O Rappi tem compras de loja e um serviço de viagem.
Para 99Food e Keeta não achamos lista oficial de categorias além de restaurante. Os dois chegaram depois e ainda concentram o esforço em comida pronta.
Isso pesa na decisão de duas formas. Quem já faz mercado por um app tende a concentrar tudo nele, e o clube passa a valer mais. E quem mora longe dos grandes centros descobre que, às vezes, só um app entrega ali, seja comida ou remédio.
Onde cada um chega
A cobertura muda o jogo antes de qualquer taxa. Não adianta o app mais barato se ele não entrega no seu endereço.
O iFood diz, na própria página institucional, que está em mais de 1.500 cidades. No mesmo site, outro trecho fala em mais de 2.000. Os dois números convivem na mesma página, e não sabemos qual é o mais recente.
O aiqfome diz estar em mais de 700 cidades, com foco no interior. Pertence ao Magalu, o que explica os descontos do clube em lojas do grupo.
A 99Food passava de 70 cidades em março de 2026, segundo a imprensa, com plano de crescer. A Keeta começou por Santos e São Vicente, chegou a São Paulo e região em dezembro de 2025 e anunciou mais 21 cidades em outubro de 2026. O Rappi não publica número de cidades no Brasil.
Duas cenas para decidir
A taxa certa depende do pedido. Por isso montamos duas páginas com cenas comuns, em que a mesma regra pesa de jeito diferente.
- Jantar sozinho numa terça: quando a taxa pesa mais que o prato: Pedido pequeno, uma pessoa, meio de semana. É a hora em que taxa fixa e pedido mínimo mais pesam na conta.
- Mesa cheia no domingo: o pedido grande e o clube que começa a contar: Família ou amigos, pedido alto, fim de semana. A taxa se dilui e a pergunta passa a ser se a assinatura se paga no mês.
O que não conseguimos saber
Ficaram buracos, e preferimos mostrar a esconder.
Não lemos a página oficial do Clube iFood. Ela pediu verificação de robô e não tentamos contornar. O preço que aparece na tabela veio da imprensa.
Não achamos regra publicada de taxa de serviço para Keeta e aiqfome, nem o valor da taxa do Rappi. Não achamos clube de cliente na 99Food e na Keeta. Não achamos site oficial brasileiro da Keeta: o endereço com o nome dela no Brasil pertence a outra empresa, e por isso a ficha da Keeta não tem botão para site oficial.
A regra de cálculo da taxa de entrega não está publicada por nenhum dos cinco. Também não sabemos se quem assina o Clube iFood paga ou não a taxa de serviço; só há comentário de cliente sobre isso, e comentário não basta.
Quando uma dessas respostas aparecer em página aberta, ela entra aqui com o link e a data.
Como fizemos esta leitura
Lemos, em outubro de 2026, a página pública de cada app: termos de uso, ajuda, página institucional e a descrição publicada na loja de aplicativos. Quando a empresa não publicava, a fonte passou a ser órgão público, como o Procon, ou imprensa com data. Cada regra tem a fonte no fim da página do app.
Não usamos link de indicação. Os botões levam ao site do próprio app. Não temos ligação comercial com nenhuma das cinco empresas.
Taxa e promoção mudam por cidade, por horário e por semana. O que vale, no fim, é a conta que o app mostra antes do botão de pagar. Este site serve para saber o que procurar nela.
